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REGISTROS DO PRIMEIRO DIA – 27 DE ABRIL

Créditos: Fanzine/Fundação Joaquim Nabuco

DIA 3: A EMPATIA POLÍTICA E AFETIVA ENTRE PAUL ROBESON E OS MINEIROS GALESES

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Paul Robeson e os mineiros galeses, na década de 1920

A partir do livro Black Skin, Blue Books: African Americans and Wales 1845-1945 (2012), de Daniel G. Williams, o pesquisador Huw Williams, da Universidade Cardiff, contou a história da relação de empatia política e afetiva entre o ativista afro-americano Paul Robeson e os mineiros galeses em 1928, para ampliar as discussões acerca da justiça global. Na manhã do último dia do I Colóquio Justiça, Democracia e Emoções Políticas em Perspectiva Transnacional, Huw mostrou como os estudos sobre justiça global podem ir além de dimensões estatais, das dicotomias entre Norte e Sul, das visões de que os problemas de justiça estão “lá fora” e das buscas por uma convergência moral que deixam de valorizar as peculiaridades culturais de cada sociedade.

Ele se propõe a contar a história afetiva entre Paul Robeson e os mineiros galeses para mostrar como outras questões também podem ser levadas em consideração com o intuito de ampliar mais o debate sobre justiça global. “Trata-se de uma narrativa que vai além dos estados ao abarcar grupos culturais sem nação por se tratarem substantivamente de indivíduos, uma história que trata do mundo ocidental, um conto que fala de dois movimentos sociais que se uniram fortemente dentro de suas diferenças culturais”, justifica Huw Williams.

Assim, o caso trazido por Huw elucida aspectos que, para ele, poderiam ser utilizados de maneira mais recorrentes nos estudos sobre justiça global, sem deixar de incluir – como ele frisa – os aspectos já abordados pela maior parte das pesquisas sobre o tema. “Eu sugiro uma leitura complementar à pesquisa e aos debates sobre justiça global – não uma rejeição radical ao que já foi feito antes”, aponta o pesquisador.

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Montagem mostra frase de Paul Robeson: “Não há lugar no mundo que eu goste mais que o País de Gales”

A história de Paul Robeson e os mineiros galeses foi narrada de maneira detalhada e aprofundada por ele. Diz-se que a primeira ligação estabelecida entre Robeson e os mineiros foi em 1928, quando ele resolveu aderir a uma marcha dos mineiros galeses cantando no London’s West End. Não se sabe se a relação começou realmente ali, mas ela sinaliza a relação entre ambos os grupos tinha uma base política, mas também emocional, uma vez que ela partia das músicas cantadas por Paul Robeson.

Huw Williams destaca uma das falas de Robeson que sinaliza como o seu comprometimento político não veio apenas da fé nos direitos do seu povo, mas também da conexão com os mineiros galeses que, na época, sofriam com ondas de demissões.

Leia abaixo o trecho original, colocado na íntegra para evitar problemas de tradução >

“I was in the Welsh valley, and the Welsh people sing very much like we do – the Negro people – in many of our songs – beautiful songs. And I was one of the few outsiders who sang at their national festival, which has gone on since the time of the Druids. And I went down into the mines with the workers, and they explained to me, that ‘Paul, you may be successful here…, but your people suffer like ours. We are poor people, and you belong to us. You don’t belong to the bigwigs here in this country.’ And so today I feel as much at home in the Welsh valley as I would in my own Negro section in any city in the United States. I just did a broadcast by transatlantic cable to the Welsh valley, a few weeks ago, and here was the first understanding that the struggle of the Negro people, or of any people, cannot be by itself – that is, the human struggle. So I was attracted by and met many members of the Labour Party, and my politics embraced also the common struggle of all oppressed people, including especially the working masses – specifically the laboring people of all the world. That defines my philosophy. It’s a joining one. We are a working people, a laboring people – the Negro people”

DIA 2: DESRESPEITOS E VIOLÊNCIAS COMO CAUSAS DA CRISE DE CONFIANÇA NO SISTEMA JURÍDICO BRASILEIRO

A crise de confiança que as pessoas têm no sistema jurídico brasileiro e o desrespeito às normas e leis atuais estão conectados com um ciclo vicioso de violência, falta de reconhecimento e desrespeito aos direitos dos outros pelo estado legal do sistema democrático e pelos indivíduos em particular. É isso que defendeu a pesquisadora Brunela Vincenzi, da Universidade de São Paulo (USP), no segundo dia do I Colóquio Justiça, Democracia e Emoções Políticas em Perspectiva Transnacional.

Para ela, a falta de confiança no sistema jurídico brasileiro vem do uso repetitivo da violência pelos indivíduos e pela polícia, existente de uma maneira institucionalizada no País para resolver disputas políticas e conflitos intersubjetivos. “Como ela é institucionalizada, a violência passa a ser um fator que desencoraja as pessoas a procurarem proteção em um sistema de estado para resolver disputas”, defenda a pesquisadora. A institucionalização da violência causa, por sua vez, um sentimento de injustiça na população e, consequentemente, uma falha nas relações de reconhecimento, como explicita o filósofo Axel Honneth em sua Teoria do Reconhecimento.

Assim, a pesquisadora recorre às teorias de Axel Honneth para analisar dados sobre a violência e sobre a história da violência em São Paulo, levantados pelo Centro de Estudos de Violência da USP. Ao ter identificado uma crise de confiança no sistema jurídico brasileiro, Brunela chegou a um fenômeno contemporâneo brasileiro capaz de exemplificar tal falta de crédito em uma instituição supostamente democrática: o surgimento de organizações criminais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), que busca formas alternativas para resolver disputas, através de cortes e julgamentos particulares, realizados dentro e fora da prisão.

“Os membros do TCC lutam por reconhecimento a sua maneira. Não quer dizer que, pelo fato de eles terem feito determinados atos ilegais, eles não tenham direito aos direitos humanos”, acredita a pesquisadora, em uma opinião certamente polêmica.

DIA 1: EMANCIPAÇÃO A PARTIR DE UMA RELAÇÃO DE RECONHECIMENTO

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Do graphic novel “Maus”, de Joe Sacco

Durante a manhã do primeiro dia do Colóquio Internacional Justiça, Democracia e Emoções Políticas, o pesquisador Vitor Blotta, da Universidade de São Paulo (USP), mostrou como novas formas de visibilidade midiática, principalmente aquelas que fazem uso de elementos estéticos e literários, como docudramas, graphic novel e outros tipos de produtos jornalísticos mais literários, são fundamentais para o fortalecimento dos potenciais democráticos das esferas públicas transnacionais e para a geração de uma solidariedade política intra e transnacional.

Para defender a ideia, Blotta parte de concepções republicanas de liberdade e acesso à informação, surgidas nos anos 1970 em reação aos oligopólios das empresas de mídia e ao perigo das homogeneidades culturais que elas estimulavam. “Novas formas de visibilidade midiática podem nos dar acesso a informação que nos trazem identidades híbridas, não mostrando apenas as diferenças, as distinções. Histórias, biografias e elementos de ficção podem trazer novas identidades e grupos de uma maneira mais sensitiva e singuar”, explica o pesquisador. Assim, para ele, tais formas de visibilidade midiática quebrariam as homogeneidades culturais trazidas pela mídia dominante.

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Do graphic novel “Castro”, de Reinhard Kleist

Ao se voltar mais para o conteúdo das informações que circulam, Blotta não se prende a questões estruturais da disseminação de informação, como o faziam concepções mais liberais de direitos humanos das sociedades ocidentais, no século 19 e na maior parte do século 20. Concentra-se em concepções republicanas, que, segundo ele, têm relações com as concepções de reconhecimento e liberdade social de Hegel e Axel Honneth e de políticas de reconhecimento de Taylor e Laborde.

Para ele, os graphic novels “Maus”, de Joe Sacco, ou “Castro”, de Reinhard Kleist, são exemplos de produtos jornalísticos que causam uma relação de reconhecimento de identidades mistas, capazes de fragilizar noções de identidade nacional e de promover emancipação dos sujeitos.

“WE SHOULD DEVELOP AN EXPERIENTIAL CULTURE WHICH TAKES EMOTIONS SERIOUSLY”, SAYS CHRISTINE UNRAU

Foto Christine Unrau

The importance of emotional experience among the creators of the Global Justice Movement, a network of global movements which defends an equal distribution of resources, is the center of the studies of the researcher Christine Unrau, from Duisburg-Essen University, in Germany. Through the premise of the North-American poet Ralph Waldo Emerson, which says that nothing important was ever reached without enthusiasm, Christine believes that emotional experience can motivate political commitment in a global level – the case of the Global Justice Movement. In the interview she granted to this blog, she talked about the presence of emotional experience at the recent “Occupies”, how emotions can change global injustices and how a sentimental education can lead us to feel compassion for others.

Read the interview below >

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – In your opinion, what’s the importance of emotions for worldwide politics?

CHRISTINE UNRAU – Emotions can have a variety of consequences for politics: Indignation or compassion can lead to commitment for change, but at the same time, fear of the “other” can lead to aggression and violence; resentment, often based on a feeling of powerlessness, can make us withdraw from any kind of participation in politics. In a globalized world, causes and effects of emotions are not limited to the nation state: Through faster and better communication technologies, what is happening around the world can be transmitted to the average internet user and events in different angles of the world can – at least potentially – arouse us just like events in our own city. At the same time, many people realize that important political decisions are no longer taken by their respective governments and therefore turn to the global level to address the grievances which cause their indignation or compassion.

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – Your research brings the example of the Global Justice Movement to show how emotional experiences can motivate political commitment at a global level. How is this movement linked with emotional experiences?

CHRISTINE UNRAU – There are primarily three emotions that play a central role in this context: Love, compassion and indignation. All of them are interpreted as motivational forces of commitment for a different kind of globalization. For example, the indignation felt in view of an unjust global order is seen as a motivation for political action taken to change that order. Secondly, emotion is seen as an important aspect of the forms which political commitment can take: Parades, manifestations, and political actions in day-to-day life can be felt as sources of joy and love and therefore as potentially successful, as opposed to actions taken merely out of duty. On a third level, the arousal of certain emotions is an aim of political commitment in itself. However, the Global Justice Movement is not a movement based on emotions only. Other dimensions of experience also play a central role, not least rational experience, and – in many cases – religious experience.

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – Do you have any other example of a global movement motivated by emotional experiences?

CHRISTINE UNRAU – Another example would be a movement which refers to emotion in its very name: The indignados (or indignants). Although they originated in Spain in 2011, they are part of a bigger movement, which in this year initiated a new cycle of mobilization, namely the various strands of “Occupy”. Many of its protagonists were already active in the Global Justice Movement around the turn of the millennium.

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – These movements defend different forms of globalization, according to your explanation. What are these new forms of globalization? How do are them?

CHRISTINE UNRAU – The movement which I have been studying and which had its “peak” around the turn of the millennium – with the “battle of Seattle” in 1999, the Anti-G8 in Genoa in 2001 and the foundation of the World Social Forum in the same year – has often been labeled “anti-globalization”. However, most of its participants do endorse many aspects of globalization, above all the interconnectedness, the use of information technology, the relative easiness of traveling. What they oppose is a certain form of globalization, usually termed “neoliberal” or “globalization from above”. It is characterized by the fact that actors who are not democratically legitimized hold an enormous amount of power at the global level. At the same time, profit seems to be the single most important criterium for all policy measures taken and enforced. Very broadly speaking, the forms of globalization they are committed toare forms in which people come first and decisions are taken by those who are affected by them, or by their legitimate representatives. However, there is a huge variety as to ideas how this is to be reached.

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – You use three authors from three different fields (Philosophy, Theology and Sociology) to analyze contemporary global emotions. Can you explain each of these visions?

CHRISTINE UNRAU – I take these three disciplines – Philosophy, Theology and Sociology – as criteria to categorize different thinkers associated with the Global Justice Movement. In their reasoning about globalization and political commitment the authors I have studied draw on these three realms of knowledge. I would not say that each of these groups has a clearly defined “vision” of alternative globalization. What I find interesting is that thinkers from these very different disciplinary backgrounds converge in certain points. One of them is precisely the importance attributed to emotions like indignation.

TRANSNATIONAL JUSTICE’S BLOG – How could we create a world where all the people would have feelings as compassion and love towards each other? Do we need a process of sentimental education?

CHRISTINE UNRAU – There are strong advocates of this idea. For example Leonardo Boff calls for a world ethics based on the principle of compassion. And he has good arguments, e.g. that most religions and philosophical traditions attribute a high value to compassion. As Judith Shklar point out, to be “deaf” to the suffering of others is to be unjust. She illustrates this with reference to “L’ingiustizia”, a painting by Giotto from the beginning of the 14th century which shows the personification of injustice: It is someone who remains completely unmoved by the suffering that is going on right in front of his eyes.

However, I think we should also be aware that the compassion or love we can possibly feel for strangers is not the same what we experience with our family and friends.If we felt compassion for everyone at every single moment we would no longer be able to live our lives nor – as Hannah Arendt reminds us – to do politics, that is, to come together, to argue, to convince, to persuade, to compromise. So this wall that we have built to protect us against the “misery of the world” is to a certain extent necessary.

However, what we do need to develop is a sense of the immensity of suffering which we are constantly preventing from arousing our emotions. Theologians within the Global Justice Movement attribute this task to the religions. Another way of “sentimental education” is through narration, a process of focusing on individuals, learning about their stories and becoming able to imagine their future. Therefore, Richard Rorty explicitly calls for “sad sentimental stories” to be told in order to retrieve our compassion, citing as examples the Aeschylos’ drama “The Persians”, the novel “Oncle Tom´s Cabin” and TV programmes about atrocities.However, the fact that this is actually a technique, which can be used for manipulation, also shows that sometimes, our compassion might not always be a reliable indicator of what needs to be done politically. Also, “education” always leads to the question: Who is entitled to educate whom?

In my view, we should develop an experiential culture which takes emotions seriously and sees them as indicators of what is going wrong, but at the same time takes other dimensions of experience into account – reason, for example.